sábado, 11 de fevereiro de 2012

Odete

ODETE FIGUEIREDO RODRIGUES

Mãe, a chuva esta destruindo seu pé de acerola, e alguém esta arrancando suas plantas do jardim.
Aqui, de fora do universo particular em que você mergulhou, o mundo continua como sempre, algumas pessoas acordando cedo para o trabalho, outras para sentar na praça e se embriagar, outras chegando da noitada de trabalho ou diversão. Pessoas nascem sozinhas e outras morrem em iguais condições.
Eu lembro que quando era criança tinha orgulho de ter a letra parecida com a sua e ficava assinando seu nome. Também sempre tive orgulho do seu trabalho. Tentei te agradar estudando para ser professora como você, mas herdei a paciência do meu pai.
Do meu pai também herdei a ignorância, a soberba e a teimosia.
Essa semana estava lendo a homenagem que suas colegas de trabalho lhe fizeram, e parece que você cuidou de muitas crianças com amor e dedicação.
O que acontece com uma pessoa em coma?
Você se orgulha dos bens  materiais que conseguiu prover para sua família, e agora tudo isso não é nada sem você. Sua presença ativa e sábia em minha vida teria sido muito mais proveitosa do que uma chácara abandonada, casa, carro e tudo mais que você nos deu.
Herdei de você o gosto por literatura, e a depressão.
Também  vem de você meu jeito de sentar, de falar alto, meus pés, minhas pernas e meu péssimo gosto para escolher marido.
Você sempre ameaçou fugir, sempre disse que um dia iria nos abandonar. Deveria ter escolhido outra maneira . Deveria ter fugido enquanto éramos crianças para nos dar uma oportunidade de viver em paz.
Paz ainda é um sonho distante. Eu tento imaginm mar como seria viver em paz. Quem sabe uma sociedade alternativa, onde não haja ninguém explorando ninguém, nem mentiras, traição.
Um lugar onde nossos filhos possam caminhar por aí a vontade sem a ameaça de serem estuprados, assaltados ou mortos. Onde as mães não escolham cuidar de seus homens ao invéns de protegerem seus filhos.
Ninguém tem coragem de limpar seu quarto, estamos esperando que você volte, porque sabemos que não gosta da nossa arrumação.
Quais são seus piores medos? Livre-se deles.
Qual o seu maior desejo? Livre-se dele.
Planejamos tudo na vida, planejamos também a maneira que queremos morrer .Tudo  esta gravado no nosso inconsciente.
Quando você voltar, se você voltar, farei não só a polenta que você me pediu, mas também plantarei um milharal inteiro para você.



terça-feira, 22 de novembro de 2011

domingo, 30 de outubro de 2011

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Auto retrato alheio, capítulo 5 e 6

Capítulo 5
Depois que minha mãe morreu, meu pai começou a bater no Arthur.
Tudo que meu irmão fazia estava errado quando meu pai estava em casa. Nossa sorte é que ele mal ficava em casa. Trabalhava muito e tinha muitas mulheres pra se preocupar na rua. Chegava a ficar meses sem aparecer. Os empregados iam embora por falta de pagamento. Eu tinha 10 anos. Aprendi a arrancar o máximo de dinheiro da carteira dele quando ele dormia, pra não deixar meu irmão precisando até de comida. As vezes eu pegava folhas de cheque e assinava. Nós comprávamos roupas e sapatos com os cheques.
Depois de um tempo eu anotava no canhoto do talão a quantia que eu tinha gasto.
Não sei porquê meu pai implicava com o Arthur. Imagino que é porque ele tinha postura de submissão, os ombros curvados, voz baixa. Também  sei que meu pai farejava o medo. Todo ser humano sabe farejar o medo, a miséria de espírito fica estampada no rosto, assim como a miséria material.
O Arthur não era um  miserável, ele só era pobre, porque tinha medo. Medo da morte, medo do sangue que corre dentro de nossas veias, medo da realidade cruel do mundo, medo de sofrer fisicamente, porque moralmente já é um grande sofrimento viver com medo. O medo é um fantasma que nunca vai embora, vive a espreita atrás da porta, espera o momento propício e se posta ao nosso lado, senta em nosso colo. Nunca nos abandona e toma as rédeas assim que pode. Convivo com meus fantasmas pacificamente, faço questão de vê-los ao meu lado para que eu possa  controla-los.
Meu maior medo é ter sentimentos descontrolados de amor romântico, como minha mãe . Matar foi um exemplo de sentimento descontrolado, não de amor. Uma fraqueza
Perfeitamente cabível dentro do mim.
Qualquer abraço prazeroso cabe em meu corpo. Não há alguém no mundo capaz de fazer com que eu sinta saudade. Mal entendo o significado dessa palavra. A pessoa que mais surge de maneira carinhosa e que a presença física me afeta positivamente  é meu irmão.
Capítulo 6
Sem pedir licença ao mundo me retirei por um longo período.
Há um buraco na minha percepção da realidade e eu não sei como preenche-lo.
Parece que minha psicóloga fez o curso na revista “Elas”.É óbvio que odeio meu pai e minha mãe e projeto isso no mundo, e aí? E depois?
É claro também que me sinto a melhor em tudo, para compensar o abandono, e que se vi violência na infância a tendência é que eu a reproduza na vida adulta. Mas o que é o certo e  o errado? Errado é que me faz sofrer e eu não estou sofrendo porque não sinto culpa, remorso, amor, piedade, ódio. Nada, nada. É errado alguém aprender a se proteger? Parece que essa é ordem natural das coisas. Parece que o mundo espera que eu seja uma flor, que eu cumpra meu papel de mulher delicada e apaixonada que foi designado pela sociedade, religião e família.
Sempre senti o olhar do mundo me queimando e isso me provoca sentimentos diversos e controversos, depende do dia. As vezes uma colega de faculdade pode levar um tapa na cara por sugerir que eu me vista assim ou assado, as vezes nada acontece.
Vejo mulheres desesperadas em atraírem sexualmente , e parece que não tem um único foco, fazem disso um estilo de vida, não tem mais nada no mundo. Esse é o tipo  de mulher que vê novela, filmes românticos e sonham com amor apaixonado. Como se ser humano pudesse ser feliz se relacionando com apenas uma pessoa na vida. Mas é esse o comportamento que a sociedade hipócrita exige e que todo mundo finge ter. Elas ficam toda semana até tarde da noite tentando arrumar a cara, o cabelo e o corpo em maquiadores e clínicas de estética só pra algum homem, qualquer um que seja, desejar sexo com elas.
Quando eu ficar velha, quero ser velha mesmo. Teria muita vergonha de tentar atrair macho depois da idade reprodutiva. É patético e biologicamente improvável, já que na natureza a atração para a cópula se destina a reprodução da espécie. As pessoas continuam querendo sexo depois da andropausa e da menopausa por não aceitarem o envelhecimento de seus corpos. E quem dita a regra de ser idoso é ruim é a nossa sociedade e eu não concordo. Assim como a criança e o adolescente até certa idade não estão preparados para o coito, o idoso também não está. Idoso com adolescentes então, como meu pai fazia, é horrivelmente bizarro, uma aberração biológica como cruzar macaco com barata.
Todo mundo mente e trai. A dona de casa feia, obesa que não trepa com o marido há anos porque o marido também não faz questão e provavelmente ta comendo um monte de prostitutas, faz sexo mentalmente com o lindo galã da novela .

sábado, 24 de setembro de 2011

Auto retrato alheio cap 4

Minha psiquiatra é muito diferente da terapeuta, porque ela acredita na ciência comprovada , e eu acredito também! Admito, eu tenho fé na ciência.
Só consigo lidar com o que é palpável. Não tenho fé mas acredito que no poder que ela exerce sobre as pessoas. Um dia, quando um paciente  entrou em óbito, suas pernas ficaram dobradas. Foi aquela luta,  médicos e enfermeiro  tentando desdobrar a perna até que chegou a filha, fez uma oração que não ouvimos, e a perna do cara desdobrou sozinha, como se ele estivesse vivo. Aquilo eu vi mesmo. Pode ter sido apenas um espasmo, mas foi um espasmo sinistro!
A doutora Maria pergunta nas consultas sobre os efeitos da medicação que estou tomando. Tomo toda medicação que ela indica, pois eu a admiro como médica.
Meus dias estão cinzas, apesar do sol, apesar do antidepressivo. Durmo mal mesmo com a medicação certa. As vezes vejo o mundo como mera expectadora como se eu não tivesse o poder de mover nem uma pena, como se eu nem estivesse ali. Muitas vezes não estou ali.
Essa semana, estive imersa em lembranças do tempo em que eu comecei a namorar o Alexandre.
Nunca quis namorar com ele. Eu me imaginava acompanhada de um homem admirável, culto, rodeado de livros e sabedoria. Mas eu gostava demais de sexo pra ficar esperando o homem perfeito chegar. Toda sexta eu ia em barzinho que o pessoal da faculdade freqüentava. Ia sozinha, já que não tinha amigos. Nunca me lamentei por não ter amigos. Amigos de faculdade são nossos concorrentes do futuro, e eu sempre fui muito mais inteligente que todos da minha turma.
Uma noite eu estava procurando sexo no bar e encontrei o Alexandre. Foi o primeiro cara que me fez gozar na vida. Ele fazia sexo como uma mulher! Inevitavelmente pensei que estava apaixonada. O Amor é um jogo de interesses: interesse em sexo, em segurança, em respeito e adequação social, em aquisição de bens, até em alcançar o paraíso.
Eu pesava sempre as coisas. Ele entedia 30% de tudo. As situações que envolviam comportamento humano ele entendia 10% do que rolava, sempre. Mas fazia uma massagem deliciosa na minha bunda. De manhã, ele tinha um ritual: tomava banho e se masturbava (mesmo que tivesse transado a noite toda), tomava café puro, e passava duas horas se arrumando. Passava creme corporal, creme pro rosto, creme pro pé, e fazia uma escovinha no topete! Essa escovinha no topete me matava. Gostava de roupa de marca e bem passada. Ele mesmo fazia questão de passar sua roupa com uma água que eu não sei nome, misturada com perfume. Mas nunca me negava sexo, nunca.
O Alexandre  passava o final de semana enfiado na minha casa no começo. Eu não gosto.
Com o tempo fui deixando ele sozinho na minha casa, já que ele se recusava a sair. Ele ficava arrumando minhas coisas. Se eu jogasse uma toalha molhada em cima da cama, ele tirava. Queria almoçar sentadinho na mesa. Eu gosto de comer deitada na minha cama e jogar o prato em qualquer lugar. Mas a gente desarrumava o lençol sem frescura.
Quando eu  penso nele, mesmo agora que ele ta morto, fico exitada.
Uma vez ele me disse que ia viajar com a mãe, era ano novo. O celular dele ficou 3 dias desligado. Ele não me convidava pras festas em família, talvez tivesse vergonha de mim, sei lá. Eu sei que eu nunca estava presente em nenhuma reunião familiar dele. Parecia que eu nem existia na vida social do Meu namorado. Mas tinha uns dedos mágicos!
Eu tinha muitos problemas de ordem emocional que eu precisava conversar com alguém. Ele ouvia com o olhar vazio.
Um dia ele estava em uma festa com os colegas do golfe e houve um pequeno acidente. Foi ele quem levou a vítima no hospital em que eu trabalhava. Eu atendi o amigo dele, todos os amigos dele estavam lá e ele nem sequer me apresentou. Mas eu adorava fazer sexo oral com ele!
Se ele estivesse vivo hoje eu trocaria 10 anos da minha vida por uma massagem na bunda!
Depois eu o mataria de novo.´

Capítulo 5
Depois que minha mãe morreu, meu pai começou a bater no Arthur.
Tudo que meu irmão fazia estava errado quando meu pai estava em casa.Nossa sorte é que ele mal ficava em casa. Trabalhava muito e tinha muitas mulheres pra se preocupar na rua. Chegava a ficar meses sem aparecer. Os empregados iam embora por falta de pagamento. Eu tinha 10 anos. Aprendi a arrancar o máximo de dinheiro da carteira dele quando ele dormia, pra não deixar meu irmão precisando até de comida. As veses eu pegava folhas de cheque e assinava. Nos comprávamos roupas e sapatos com os cheques.
Depois de um tempo eu anotava no canhoto do talão a quantia que eu tinha gasto.
Não sei porque meu pai implicava com o Arthur. Imagino que é porque ele tinha postura de submissão, os ombros curvados, voz baixa. Também  sei que meu pai farejava o medo. Todo ser humano sabe farejar o medo, a miséria de espírito fica estampada no rosto, assim como a miséria material.
O Arthur não era um  miserável, ele só era pobre, porque tinha medo. Medo da morte, medo do sangue que corre dentro de nossas veias, medo da realidade cruel do mundo, medo de sofrer fisicamente, porque moralmente já é um grande sofrimento viver com medo. O medo é um fantasma que nunca vai embora, vive a espreita atras da porta, espera o momento propício e se posta ao nosso lado, senta em nosso colo. Nunca nos abandona e toma as rédeas assim que pode. Convivo com meus fantasmas pacificamente, faço questão de vê-los ao meu lado para que eu possa controla-los.














quarta-feira, 21 de setembro de 2011

AUTO RETRATO ALHEIO CAPÍTULO 3


Gostaria de ser esquizofrênica paranóica e ter criado um lindo universo paralelo só pra mim. Nele eu seria o Batman. Não gostaria de ser a Bat Girl porque é um personagem secundário e eu não poderia ser o coadjuvante da minha própria vida, é claro.
Mas muitas vezes é isso que nos tornamos. Colocamos os valores alheios em primeiro plano e esquecemos de ouvir nossa própria voz. Isso acontece quando aceitamos os dogmas religiosos e os padrões sociais que nos são infringidos por nossos pais, nossos professores, padres e pastores.
Minha mãe era médica, católica apostólica romana e suicida.
Ela se matou quando meu pai resolveu explorar abertamente territórios proibidos e muito mais jovens. Ele gostava de Ninfetinhas.
 Eu me pergunto sempre o porquê de tantos homens gostarem de mulheres muito mais jovens e cheguei a algumas conclusões:
1-Alguns machos de nossa espécie procuram fêmeas no começo da idade reprodutiva para terem mais chances de terem filhotes mais fortes. 2-  Tem medo   de serem comparados com outros machos e consideram que as bem jovens não tem parâmetro de comparação. 3- As mais jovens ainda não desenvolveram o raciocínio lógico suficiente para perceberem o quanto eles são patéticos!
Minha mãe, numa tarde de domingo, quando eu e meu irmão brincávamos na piscina, deu um tiro na cabeça.
Quais eram seus pensamentos na hora em que cometeu este grande erro? Extrema tristeza? Desespero? Depressão? Talvez tudo isso junto, mas eu sei que o amor que ela  deveria sentir por nós tinha que predominar perante tudo isso. Mas não aconteceu. Ela morreu de amor e ódio pelo meu pai.
 Ela já era morta antes disso. Passava seus dias mexendo nas coisas dele, contratando detetives particulares, amaldiçoando mulheres, comendo, dormindo, comendo, dormindo, se desesperando. Ela também se preocupava em gastar o dinheiro que ele ganhava com futilidades da última moda. Fazia jantares em casa e procurava parecer ótima sempre, mas por dentro era um lixo humano.
Não fiquei triste quando ela morreu, fiquei curiosa com o buraco da bala aberto na sua Têmpora. Meu irmão vomitou e eu fiquei olhando, olhando... até anoitecer, chegar a madrugada. Então meu pai chegou. Bêbado. Eu só me lembro depois, no enterro, quando  alguém comentava e olhava pra mim: “essa menina é fria”. Eu não podia chorar a morte de uma mãe que eu nunca tive. Eu não conseguia sentir a falta dela.
Meu irmão gêmeo, Arthur é um sujeito amoroso, carismático! Sempre foi muito sensível. Eu o defendia  na escola, tinha que bater nos meninos.  Tinha que protege-lo sempre.
O Arthur é Arquiteto. Mora com um amigo, é sociável. Quase morreu do coração quando eu matei o Alexandre!!! Penso nele mais do que em mim mesma.
No dia em que minha mãe morreu a única coisa que me preocupava era meu irmão que não parava de chorar e vomitar. De onde estava surgindo tanto conteúdo para ele vomitar se ele não estava comendo? Será que ele estava vomitando os próprios órgãos? Será que já esta chegando a vez de vomitar o próprio coração? Eu tinha medo dele morrer, porque eu ficaria sozinha se isso acontecesse.
Não entendo esse tipo de amor que leva as pessoas a cometerem suicídio, só entendo a raiva que leva alguém a matar.

CONTINUA....